faz quase um ano que parei de treinar. primeiro, faltou tempo, porque eu dava aula em outra cidade. depois, faltou dinheiro. eu senti primeiro o cansaço, porque treinar boxe te deixa preparado pra qualquer outra luta. comecei a cansar muito. depois, senti a necessidade de buscar o que a endorfina dos treinos me trazia. comecei a engordar de novo. depois, senti que aquela rotina de subir a ladeira da minha rua enquanto enrolava as ataduras nos dedos e controlava a respiração no passo rápido do aquecimento, ou de sair pro treino fizesse chuva, 2 graus negativos ou soprasse o pior Minuano, era o que mantinha minha mente em paz, era o que me fazia ter força pra continuar trabalhando, mesmo quando o corpo pedia descanso. era o que me dava força pra raciocinar mesmo sem ter dormido muito. era o que me dava disciplina.
mas parar com os treinos me afastou também dos meus comparsas de luta. pessoas com quem eu aprendi, pra quem eu ensinei, com quem passei a maior parte da minha semana nos dois últimos e terríveis anos da tese. pessoas que me olhavam no olho enquanto esquivavam dos meus golpes, pessoas de quem eu aprendi o ritmo, as falhas e as virtudes. foram companheiros, foram adversários, foram treinadores e treinandos.
e hoje, olhando fotos daquela época, me dei conta de que a imensa falta que eu sinto do boxe e dessas pessoas é porque a disciplina, a força pra aguentar às vezes dor, às vezes cansaço, às vezes ambos, o companheirismo e a rotina dos treinos literalmente salvaram minha vida. numa fase muito difícil, quando eu não dormia mais que 3 horas por noite, eu ia treinar religiosamente. eu não conseguia colocar nada na boca, porque sentia vontade de vomitar o tempo todo, mas porque eu precisava estar forte pra lutar, eu me forçava a comer antes de cada treino. quando eu não queria ver ninguém, porque tudo machucava, eu colocava o treino em primeiro lugar. quando eu passava meus dias agachada chorando, ou a noite escrevendo tantas páginas do meu diário, pra poder me livrar do sofrimento, eu não queria ir pro boxe. mas eu ia. então, quando eu digo que o boxe salvou a minha vida, não é modo de dizer. salvou, porque depois que eu parei de pensar em qualquer outra coisa que me impedia de tentar acabar logo com tudo, o boxe foi a única coisa que me impediu de engolir de uma vez só todos os remédios pra dormir que eu tinha parado de tomar porque me impediam de pensar, e que eu guardava numa caixinha pro dia em que decidisse parar mesmo de pensar, pra sempre. foi a única coisa que me impediu de ir até o fim com a faca e cortar logo o fluxo daquele sofrimento. eu decidi isso tantas vezes. mas quando eu não pensava em mais nada que me segurasse aqui, foi o boxe quem me impediu.
não tenho vergonha de parecer fraca porque pensei em fugir tantas vezes. eu estava fraca. a depressão tira uma das coisas que sempre sobrevivem num ser humano, ainda que se possa sofrer muito: o sentido da vida. depressão, não tristeza. não "uma fase ruim". não "época meio conturbada". depressão é uma coisa que funciona cortando qualquer sentido que viver possa fazer. e quando o sofrimento é tão extremo e a vida não tem mais sentido, o que nos segura? lutar foi o que me segurou.
[ Penkala ] 00:00 ] 0 comentários
um dia uma mamografia detectou calcificações nos meus seios. não é todo dia que tu descobre que tem pedras no próprio peito. embora elas não fossem malignas, pelo que os exames apontaram, não é todo dia que tu leva na boa receber uma notícia dessas. eu nunca levei na boa. mas isso a gente esquece. vai no médico, vê se tá tudo bem ainda, e esquece. até a próxima visita ao médico.ironicamente, foi mais ou menos na época que recebi essa linda notícia que minha vida começou a desandar. é injusto dizer isso, eu sei. mas desde essa época eu não consigo virar um ano sem dizer que o ano que passou foi uma merda, ainda. tem sempre uma coisa que estraga tudo.e não é assim a vida?é. a vida é feita de dias felizes e uns 10 de merda, mais dois ou três felizes e uns outros de desastres, fracassos, tragédias, problemas, suplícios. o triste é quando tu consegue dar conta da época exata em que tu começou a desandar. tu. uma entrada numa era em que tu tá desandando. e é aí que a história da pedra entra. eu tenho uma pedra no peito. e eu não consigo tirar. e a cada ano ela fica maior. e mais dura. e menos força eu tenho pra tirar.não é todo dia que tu quer te dar conta disso.mas uma vez que tu te dá conta disso, o que fazer? o que se faz pra arrancar uma pedra de dentro de ti? ela não sai por orifício algum. o que significa que vai ter anestesia geral, sangue, dor, roxões, invasão, e um certo gasto com tudo isso. com sorte, um bombardeio com laser vai fazer a pedra virar milhões de pedrinhas, e um catéter vai dar jeito de fazer com que essas areias escoem. mas antes isso do que tu passar anos com esse peso sem saber o que fazer. antes isso do que nunca te dar conta. antes isso que a pedra tome o tamanho do órgão.não que eu seja uma pessoa amarga o tempo todo. não faz meu tipo. mas uma pedra no peito obstrui, pesa, machuca. e tu esquece quase sempre que não pode fazer tudo. tu tenta, e aí acontece alguma coisa e tu percebe que não era pra ter tentado antes de tirar a porcaria da pedra de lá. como se parece uma pessoa que tem uma pedra no peito? não sei os outros, mas eu pareço normal. eu dou minhas aulas, amo as pessoas que eu amava, cultivo um amor incondicional pelos meus bichinhos, me preocupo com meus alunos, ajudo todo mundo, dou risada, me apaixono, saio e curto música boa, me arrumo, pinto o cabelo, vou ao cinema, faço amigos, odeio pessoas, choro por bobagem e por coisa séria, fico estressada no final do semestre, me empolgo em discussões acadêmicas, converso pelo msn, escrevo bobagem no facebook, conto piadas (muito mal, como sempre), como chocolate feito louca na TPM. eu sou uma pessoa normal. mas eu consigo amar?não. e com o tempo, passei a desacreditar que um dia possa voltar a amar. e aos poucos eu vou cometendo a injustiça de buscar alguém que me salve. alguém que corrija aquele homem. que seja o que ele não foi. homens pra isso não faltam, porque muita gente é o que ele não foi. o que eu não tinha me dado conta é de que ninguém jamais vai corrigir aquele homem dentro de mim. ninguém vai me salvar. porque não há como salvar o que já ocorreu. e quem tem que ser corrigida sou eu. (é fácil falar)passar por cima não é possível. já tentei. substituir? não dá. ponto final. ponto final é o que uma pessoa precisa dar pra corrigir isso. e tirar a pedra de dentro de si. como é que se dá um ponto final nas coisas? não é com uma assinatura no papel, dar as costas, deletar. ponto final a gente dá quando finalmente consegue entender tudo o que se passou. parece simples. mas não é. falar é fácil. e de repente é isso mesmo que precise ser feito. falar em voz alta. como eu digo pros meus alunos lerem suas respostas absurdas na prova pra que entendam onde e como escreveram bobagem.
[ Penkala ] 17:47 ] 3 comentários
resoluções pra 2012mas primeiro, revisar as de 2011:me dar mais valor, me permitir sofrer menos, ser menos permissiva com os outros [ check. almost... ];acabar meu doutorado bem e relaxar, pela primeira vez em 8 anos de Porto Alegre e 6 anos de pós-graduação [ acabei, mas ainda não consegui relaxar ];
viver mais offline e perder o vício de internerds [ nope ];
publicar minha tese e minha dissertação [ nope ];
estudar francês, melhorar meu espanhol, falar mais inglês [ nope, nope, nope ];
visitar meus amigos em Nova York [ nope ];
visitar meus amigos em Madri [ nope ];
visitar meus amigos na França e em Portugal [ nope ];publicar mais artigos [ ahn... quase ];
estudar tipografia mais a fundo [ nope ];estudar mais sobre a II Guerra Mundial [ nope ];mudar de casa [ quase lá ];
ter menos medo, ter mais coragem, ser mais imperativa, me jogar de cabeça [ é, por ser ];
me entregar menos, receber mais [ yap ];
enfiar muito meus dedos nos cabelos de alguém. um alguém. um alguém meu. um alguém por muito tempo. um alguém pra virar 2011-2012 comigo [ ahn... ];
acordar mais vezes tarde sem sentir culpa [ pouco dormi ];
viajar muitas vezes de última hora pra qualquer lugar [ não. mas muitas vezes viajei. pra lugar determinado e específico ];
fazer mais jantinhas pros amigos [ nope ];
ver mais filmes, ir mais ao cinema [ fui muito ao cinema ];
aprender a costurar decentemente [ nope ];
fazer um curso de fotografia [ nope ];
fazer um curso de edição de vídeo [ nope ];
colocar em prática meus projetos literários [ nope ];
passar em algum concurso foda [ sort of. temporário, mas foda! ];
ter dinheiro pra livros, filmes, viagens [ nunca ];
voltar pro flamenco, treinar mais boxe, andar de bicicleta [ não voltei pro flamenco, dei uma parada no boxe e não andei nem uma puta vez de bicicleta ];
tirar minha carteira de motorista [ nope ];
conhecer Berlin, a terra de onde todo mundo vive dizendo que eu saí [ é, ainda não ];
deixar de esperar tanto aquilo que eu sei que não vai dar certo [ aham ];
saber que enquanto durmo tem alguém me cuidando [ yap ];
reclamar menos [ yap ];
me realizar mais [ yap... sort of ];
ignorar gente que me faz mal [ YAP! ];
me dar o luxo de riscar da minha vida pessoas que não me acrescentam nada [ YAP! ];
perder uns 5 quilinhos [ ganhei 12! ];
se não perder 5 quilinhos, não ganhar nenhum quilinho [ né? ];
parar de me preocupar com meu peso [ não, e nem vou ];
ver o sol nascer mais vezes, mas não por estar indo dormir, exausta de trabalhar. mas por querer compartilhar isso com alguém [ algumas vezes, de certa forma, ainda que torta ];
aprender algo novo [ aham ];
sentir que sou feliz [ aham, mas não por muito tempo ];
brigar mais com os outros e menos comigo mesma [ nope ];
pisar na areia, molhar meus pés no mar, mais vezes [ pisei bastante, até ];
dar um "check" em pelo menos 80% desta lista [ né? ].AGORA as resoluções pra 2012:fugindo dos lugares-comuns do emagrecer + ser feliz + ganhar dinheiro + viajar e essas coisas básicas, vou ser mais pragmática (com os espaços pra dar check no fim do ano que vem):[ ] me realizar profissionalmente - porque ainda falta uma partezinha;[ ] conhecer ao menos um dos lugares que quero conhecer;[ ] desperdiçar menos dinheiro, gastar mais em livros e filmes e menos em bobagem;[ ] tirar todo o peso que eu vivo carregando nas costas;[ ] desobstruir a aorta;[ ] conseguir a certificação da Federação de Boxe;[ ] terminar de ler os livros sobre a II Guerra[ ] cuidar da minha saúde;[ ] comer bem menos, andar bem mais;[ ] dormir pelo menos 8 horas por noite, em pelo menos 3 dias da semana;[ ] ser mais rígida com os outros, menos rígida comigo mesma;[ ] começar meu terceiro livro de ficção;[ ] publicar ao menos um dos meus livros de ficção;[ ] publicar a tese;[ ] publicar ao menos 4 artigos importantes;[ ] fazer as 3 tatuagens que me prometi em 2011 e obviamente não cumpri;[ ] tirar minha carteira de motorista;[ ] tirar as minhas primeiras férias de verdade em 9 anos;[ ] morar com o THX, finalmente;[ ] convencer minha mãe a fazer o exame que ela deveria ter feito já;[ ] tirar todo o entulho que deixo em caixas há anos;[ ] sair da depressão;[ ] começar a aprender alemão;[ ] cozinhar mais;[ ] parar de vez com o frango;[ ] largar um vício que seja ruim pra minha saúde física ou mental;[ ] ir mais ao cinema;[ ] andar mais de avião, menos de ônibus; mais à pé, menos de carro...AQUI, O HISTÓRICO DE FALHAS E CHECKS:resoluções pra 2011
primeiro, revisar as de 2010:
* deste blog, publicadas no dia 03 de janeiro deste ano de 2010
das resoluções pra 2010
escrever mais ficção; [não escrevi quase porra nenhuma de ficção ]
dormir de conchinha sempre que possível; [ sim, mas muito poucas vezes ]
acordar de conchinha sempre que possível; [ o mesmo número de vezes, praticamente ]
acordar alguém; [ sim, mas eles passaram, todos. e eu fiquei ]
ser acordada por alguém; [ quase nunca. eu acordo sempre antes e durmo sempre depois ]
publicar meu livro de contos; [ nope ]
enterrar meus dedos nos cabelos de alguém muitas vezes; [ aham. e, ah como eu gostaria de continuar fazendo isso! ]
comer menos doces e tomar mais água; [ \o/ isso eu consegui! ]
caminhar, além de boxear; [ quase... ]
manter o treino de boxe e aumentar a frequência pra 4x por semana; [ não deu, ficaram 3, mas por culpa da academia ]
cozinhar mais; [ nope ]
receber mais amigos na minha casa; [ quase nunca ]
arrumar as porcarias pendentes na minha casa; [quase tudo que é tralha entulhada eu dei jeito de vazar... ]
ir pra Floripa visitar a irmã ao menos uma vez por semestre; [ sim ]
fazer algo de realmente divertido nas minhas férias; [ não tive férias ainda ]
ter férias; [ pois é ]
juntar uma graninha pra viajar; [ não deu ]
ir mais ao cinema; [ fui, até. mas não tanto quanto eu gostaria ]
voltar a fazer meus trabalhos de arte; [ nope ]
usar mais vestidos; [ yep! \o/ ]
trocar meus óculos; [ ahn... nope ]
parar de tomar remédios; [ parei. mas preciso voltar a tomar. ou seja: grandes merda que parei! ]
defender uma tese e publicar isso tudo; [ nope. ainda ]
tirar A na tese; [ pretendo, né? ]
dar mais aulas; [ dei menos aula, mas por um bom motivo ]
ser uma professora menos cansada; [ ahn... ]
ir a Montevideo e Buenos Aires; [ nope ]
conhecer outras cidades no Brasil; [ conheci Curitiba e São Paulo ]
fazer minha dupla cidadania portuguesa; [ nope ]
aprender a montar filmes; [ nope. a não ser tosco style ]
publicar ao menos 4 artigos bons; [ nope ]
participar de mais congressos; [ nope ]
criar coragem pra fazer carteira de motorista; [ nope ]
falar mais em inglês; [ yap. mas menos do que deveria ]
fazer um checkup geral; [ sort of ]
ter os braços torneados da Michelle Obama; [ quase. quer dizer... bom, deixa pra lá ]
comprar um sofá confortável; [ nope ]
ir ao templo de 3 Coroas; [ nope ]
acabar de fotografar os prédios bonitos em Pelotas; [ nope ]
dar um jeito no meu espanhol; [ no. puta madre, no! ]
pensar onde vou fazer meu pós-doc; [ yap. já pensei ]
assistir a todos os filmes que eu tenho em casa e que ainda não vi; [ iiiiiiih. não. e ainda tem bem mais filmes ]
sair mais vezes pra jantar fora e menos pra almoçar fora; [ menos pra almoçar fora. e quase nunca pra jantar fora ]
gastar menos com besteiras (ah, nem gasto tanto assim!) e mais com livros e filmes; [ gastei muito com filmes e livros ]
ser menos crítica comigo mesma, menos afobada com o mundo, mais tolerante com as frustrações; [ kinda ]
chorar menos, dormir mais vezes sorrindo; [ ahn... nope ]
dormir mais; [ que vocês acham? ]
planejar menos e fazer mais; [ ahn... ]
me preocupar menos e [ o texto acaba aqui, por algum motivo que nem sei. mas é, eu me preocupo MAIS. ainda... ]
. . .
[ Penkala ] 02:09 ] 2 comentários
desaparecido dado como mortoeu, que achava que me tornar doutora marcaria 2011 como A COISA. nem. o ano foi cheio de mudanças. e a maioria delas, sem nenhum registro concreto. coisas boas aconteceram, e coisas ruins tornaram a degustação das coisas boas um prazer tomado na pressa, como quem alivia as dores comendo uma pastilha fina de chocolate, tentando aproveitar cada doçura como se isso fosse tornar o amargo depois menos amargo.acabo o ano como comecei. sozinha e estressada. estressada porque ainda preciso correr muito atrás de sonhos que foram ficando pra trás ou ainda estão chegando a se concretizar recém agora. sozinha porque meu coração está vazio. eu sofri na carne a covardia alheia, então eu fico sozinha porque antes ser honesta e dar a alguém a oportunidade de ser feliz e correspondido de verdade que mentir, enganar, magoar, ficar ausente em presença, ser desleal com alguém e com tudo aquilo em que acredito.mas não fico sozinha sem sofrimento. eu sofro porque deixar alguém que me ama é dolorido. eu sofro porque eu ainda não acordei de um coma de quase 3 anos. eu sofro porque eu ainda não abri, de verdade, meu coração. não por não querer. mas porque não aconteceu. eu me apaixonei. muitas vezes. mas paixões precisam da prova do tempo. e do concreto. e nenhuma dessas coisas, nem o concreto e nem o tempo, me foram dados. não sei se seriam amores ou se acabariam em um desencanto. mas desconfio que talvez eu nunca vá saber. e eu nunca elaborei o luto por uma grande perda. foi um caso de desaparecido dado como morto. caixão enterrado vazio. enterro de corpo ausente. há quase três anos, quando, lúcida, no meio de uma depressão que me tirou a sanidade por um tempo, eu disse pro meu terapeuta: as mães de soldados dados como mortos mas que nunca enterram seus filhos, são mães que nunca param de chorar porque elas nunca elaboram o luto. eu estou tão cansada de repetir isso e nunca conseguir engolir essa massa de sentimentos que estou ruminando há tanto tempo.e não, eu não estou jogando a culpa mais em ninguém. porque as culpas existiram, mas isso não significa nada. não muda nada. estou simplesmente aqui lamentando o fato de que por incompetência ou falta de força, eu ainda não consegui superar. e o fato de ter empilhado muitos destroços sobre os já destroçados pedaços do que eu fui um dia não ajudou. um luto não elaborado foi abafado com uma série de relacionamentos que foram do doentio e perverso à tentativa honesta de ser feliz. da paixonite irresponsável ao relacionamento interrompido de forma bizarra e abrupta.eu queria saber o que fazer. mas, por enquanto, eu só sei que hoje é 23 e faz um ano que quase morri em 2 acidentes e ainda não perdi o medo de viajar de carro, assim como faz quase 3 anos que tento superar a depressão, assim como faz tempo que eu acho que me levantei e, quando abro os olhos, de novo, estou no chão. eu desisti? não. mas isso é porque sou teimosa. o meu medo é que a cada porrada no muro, os pedaços de concreto que vão caindo possam estar me soterrando de vez. e, no fim, eu esteja por aí vivendo, mas não passe de uma morta-viva.
[ Penkala ] 01:35 ] 2 comentários
still topsyturvyeu abandonei isso aqui, né? faz quase dois meses [ na real, amanhã faz mesmo dois meses que não escrevo ]. ano que vem este blog faz 10 anos e eu acho que nunca fiquei tão ausente quanto agora. mas na verdade, tenho dito tanta coisa neste blog que tem ficado pra rascunho. coisas que não consigo acabar, coisas que eu leio e penso: tá, e o sentido que isso tinha na minha cabeça e agora não tem mais?quem será que ainda vem aqui?a verdade é que tá foda, viu? a vida tá corrida, a vida mudou tanto, muita coisa na minha cabeça continua confusa. ainda? é. ainda. vocês (vocês, no plural, pfff!) querem que eu conte de como descobri que ainda sofro dessa maldita depressão? não, vocês (pfffffff) não querem. porque eu nem quero mais. óbvio que tem muita coisa boa acontecendo. mas essas eu nem tenho jeito pra contar, porque elas funcionam melhor na vida que sendo narradas aqui.mas eu volto. tá?
[ Penkala ] 02:54 ] 0 comentários
cachorro preto
sempre tem um cachorro preto andando do meu lado. eu já disse isso umas 15 vezes, e toda vez soa estranho. mas ocorre sempre. um cachorro preto que surge do nada e me acompanha por um breve espaço de tempo. não o mesmo cachorro preto. mas preto. não pedem nada, não me cheiram, não avançam pedindo carinho, não fazem nada além de andar do meu lado, eventualmente olhando pra mim com aquele olhar que nenhum ser humano é capaz de ignorar.
hoje foi um Rottweiler. mestiço, na real. vestia uma roupa em tons de vermelho e amarelo e laranja. e usava uma coleira. e não só me seguia como me guiava também, porque se virava a esquina na minha frente e via que eu não, voltava pro meu lado. me encontrou na saída do IAD/UFPel, quando eu estava correndo pra casa porque tinha esquecido o filme que mostraria pra turma da tarde. se despediu sutilmente na UCPel, uns 10 minutos depois. o Diogo acha que é por causa do cheiro do THX na barra da minha calça. se fosse assim, eu andaria sendo seguida por cachorros o tempo todo (isso não seria problema at all). um dia eu descubro qual a natureza desse estranho fenômeno. cachorros pretos que me acompanham de vez em quando.
cachorro branco
meu pai tinha esse cachorro branco. o Ice, um pastor canadense. tinha 14 anos. eu confesso que não simpatizava muito com ele, embora odiasse o fato de sentir isso. até porque meu sentimento era uma mágoa de um tempo em que o Ice ainda era um adolescente e, numa situação de disputa entre ele e Ancelote, o cocker spaniel ruão que eu amava tanto, quem saiu perdendo foi o cocker. sempre gostei de animais pretos, embora hoje tenha o THX, todo branquinho (não escolhi ele, simplesmente ganhei). mas não era por isso que gostava do Ancy, que tinha uma pelagem malhada onde os brancos pareciam grisalhos e o preto transparecia por debaixo. era porque o Ancy tinha boa índole. ele e a Akira (sim, Akira e fêmea. não questionem os nomes, não tenho idéia de quem pensou neles) tinham vindo pra casa depois do Baião morrer. Baião (de batismo, Átila) era o nosso fila querido, que morreu aos 14 anos de um câncer no fígado. cuidei dele na fase final da doença, quando tudo o que ele conseguia fazer ainda era chorar, pedindo que não deixassem ele morrer sozinho. quem já presenciou a agonia de um cachorro sabe do que tou falando.
mas não vi ele morrer. meu pai sempre foi o responsável pela solução final. Baião foi eutanasiado, algum tempo depois vieram a Akira e o Ancy, filhotes, lá pra casa. nunca fui muito com a cara da Akira, a cocker caramelo. mas era apaixonada pelo Ancelot, o cocker ruão de índole boa como o Baião tinha sido. muitos anos depois, quando meus pais adotaram o Ice, a briga entre o cocker ruão e o pastor canadense foi, é claro, por causa da Akira. num dia, fugindo de apanhar do Ice, saiu machucado e algum tempo depois morreu. ficamos sabendo que de infecção na bexiga, já que tinha quebrado o pênis. não teve um final longo como o do Baião, mas sofreu muito (e sem sabermos) e por isso morreu sozinho, sem estarmos do lado dele. isso me fez sentir raiva do Ice. nunca tratei mal, mas nunca fui próxima dele, o que me rendeu um remorso por muitos anos.
o "brancão", como meu pai chamava, envelheceu. como todos os cachorros grandes, teve uma doença dos ossos que fez com que não conseguisse mais andar. e aí, na minha primeira semana dando aula em Pelotas, ele piorou. eu ficaria 10 dias com meus pais. nesse período ele passou de um cachorro velho que andava mal pra um cachorro velho que não conseguia levantar do chão. e disso, pra um cachorro que passou três dias inteiros latindo. porque pedia ajuda pra não ficar sozinho. pra não morrer sozinho. eu ia passar de novo pelo mesmo processo triste. ele ia morrer em alguns dias e ia sofrer muito. eu pedi que o veterinário fizesse a eutanásia. não tinha mais como ele melhorar. não é justo. se melhorasse, demoraria um ou dois meses pra isso. e no mês seguinte, cairia por outra dessas doenças que os cachorros tem no fim de suas vidas. mas o veterinário quis tentar outras opções.
é lógico que a eutanásia nos aliviaria a todos. tiraria o peso do processo horrendo do fim do Ice. mas naquele momento, eu olhava pra ele e via que não era justo fazer ele passar por tantas horas assim de dor, de agonia. e de solidão.
muitas vezes fui pros fundos 3 ou 4 horas da manhã tentar aliviar essa solidão. saímos eu e minha mãe às 2h pra comprar algum remédio pra dor. a minha culpa de não ter feito nada mais que pudesse fazer ele ter menos dor, menos solidão, menos agonia, era enorme. mas ver aquele bichinho ali que não sabia falar mas dizia o tempo todo que estava com dor, que não queria morrer sozinho, isso foi o pior. e talvez muita gente nem entenda o que eu quero dizer, mas esses dias de agonia mudaram alguma coisa em mim. se eu estivesse bem, talvez não tivessem mudado tanto.
até que na madrugada de sábado pra domingo, dia dos pais, eu fui até os fundos e vi que ele ia morrer logo. eu tive raiva de ver ele passar por essa agonia. raiva porque é cruel "esperar pra ver como ele responde ao remédio" quando o bichinho tem 14 anos e isso vai apenas adiar a morte por mais um ou dois meses. raiva porque é cruel fazer um tratamento que demora muito tempo pra dar resultado e se sabe que o tratamento não salva o cachorro de piorar logo ali, em um ou dois meses. raiva porque não sabia como abreviar o sofrimento dele. raiva porque me senti egoísta. então eu sentei do lado dele, e a única coisa que eu pude fazer foi dizer baixo pra ele que ele podia ir, porque estávamos ali e que ele ia parar de sentir dor logo. eu rezei que ele fosse logo, porque nenhum minuto a mais de dor é justo. e ele morreu ali, na nossa frente, tendo convulsões, sentindo dor. e quando o corpo se revoltou pela última vez numa convulsão desgraçada, ele abriu bem os olhos. e aquilo tudo ali me fez sentir um ser humano de merda, um lixo de pessoa. e me deu raiva. muita, muita raiva. e culpa.
é surreal ver um corpo passando do estado de vida pro estado de nada. é surreal ver isso acontecer diante da gente. não faz diferença se é um animal ou não. e quando aqueles olhos do Ice, bem abertos, me olharam... eu nem sei dizer o quanto eu me senti UM NADA também. porque não importa as escolhas que a gente faz na vida. a gente sempre vai passar por uma situação dessas, pelo menos uma vez. e só o que importa é o quanto a gente consegue dar de conforto e diminuir a agonia de quem está indo embora. é quando a gente vê o quanto o ser humano é idiota. e burro. e pouco preparado. desculpa pros que não entendem o quanto isso pode mudar a vida de alguém só porque é um bicho morrendo. tem gente que não entende mesmo essa relação. mas quando dois olhos abrem bem antes de morrer e te fazem sentir do tamanho de um nada, a gente vê que a dor de uma morte só faz diferença, entre cachorros, gente, passarinho, etc, pra nós que estamos aqui do outro lado. a gente sente diferente de acordo com a relação que tem com os que morrem. mas toda a agonia dói igual em quem está morrendo. não importa se é cachorro ou se é gente. me senti pequena demais, inútil demais, e ridícula demais. e meu medo é que eu não tenho conseguido superar o fato de que sim, sou pequena demais mesmo.
[ Penkala ] 15:26 ] 0 comentários
ser professor E um nerd dos anos 80 é...
...às vezes ter a sensação de que a sala de aula é, de novo, aquele ambiente hostil de quando tu tava no colégio.
[ Penkala ] 15:47 ] 0 comentários
eu lembro de quando o professor novo entrou na sala de aula. recém saído do mestrado, 32 anos. não apenas era um alienígena (o sujeito saindo do mestrado, pra gente, naquele momento de 1999, era como se hoje chegasse pra dar aula na graduação um phd em neurociência quântica com alguma experiência em viagens ao espaço e uma pós-graduação obscura com algum filósofo recluso alemão) como era "gringo da serra" e tinha feito mestrado num idioma morto de uma civilização alienígena irmã dos maias chamado semiótica.
tudo o que ele falava era de popper e peirce, dois deuses dessa civilização que divinam um tipo de doutrina quase ininteligível. dizem os antigos que a compreensão da doutrina requer absoluta entrega e profundo desapego do mundo material e da vida normal. a disciplina que o professor novo dava era uma doutrina religiosa chamada metodologia da pesquisa científica.
não que não gostássemos do professor. era apenas impossível gostar daquela disciplina. era uma reação normal. éramos alunos de graduação. nada mais normal que odiar pesquisa, popper, peirce e todos os malditos catetos das hipotenusas das hipotesis da maldita semiótica. não fazia sentido gostarmos daquilo.
e por mais que fizesse sentido pra mim amar fazer pesquisa, amar semiótica e essas coisas absurdas todas, o show tinha que continuar e eu tinha que continuar parecendo odiar isso tudo. afinal, aluno de graduação praticamente nunca tem noção do que é o mundo real lá fora. o mundo da pesquisa de verdade, onde tu tem que matar os leões todos. aluno de graduação que é aluno de graduação precisa temer o tcc de morte. amargar horas diante dos livros pra produzir sua monografia. bradar aos céus pelo horror do trabalho de conclusão. odiar o professor de metodologia da pesquisa. odiar popper, peirce, hjelmslev, deleuze, essas coisas bonitas e líricas das quais o inferno é repleto.
mas não tem nada, não. o mundo dá voltas. eu mesma reclamei, de barriga cheia, o horror do tcc. eu mesma morri deitada em travesseiros feitos com as duras penas do mimimi acadêmico amador. agora sou eu aqui, depois de seis anos de pesquisa (vamos lá: peirce, hjelmslev, deleuze, e mais um monte de gente menos francesa, menos semiótica, menos infernal), enrolada em cobertinhas, rodeada de livros de metodologia da pesquisa científica. porque segunda, meus amiguinhos, eu vou ser a alienígena quatro olhos doutorinha de merda, pregadora da doutrina infernal que assombra alunos de graduação de todas as gerações. eu serei a A PROFESSORA DE METODOLOGIA DE PESQUISA.
vai lá, Rudi. pode rir, professor.
[ Penkala ] 19:15 ] 0 comentários
eu fiz planos que normalmente se diluíram na água corrente dos dias, todos uns por cima dos outros. eu fiz planos pra controlar aquilo que eu não quero que se perca no descontrole das coisas que nunca vão conseguir ser controladas. e foi tudo inútil e eu sofri, porque mesmo quando as coisas boas acontecem fora desses planos, eu fico me julgando demais. ou, claro, fico julgando tudo como o triste prenúncio de um grande desastre. porque faz parte da minha doença isso. essa doença que eu tento curar, esse pessimismo crônico que eu tomo muitas vezes por realismo, pra me defender. porque eu sei que não posso depositar a minha vida numa coisa, porque essa coisa pode se partir toda e a minha vida se parte junto. eu preciso particionar tudo porque da última vez que a partição do sistema se apagou, levou quase tudo que eu tinha no home. então estou aqui, pronta pra que tudo caia, porque aí eu vou apenas restar com a ponta dos meus sapatos suja de qualquer lama que porventura venha a se formar...
pois eu fiz planos, eles foram sutilmente embalados em papel pardo e, no lugar deles, tudo o que a vida sempre prepara pros que se sujeitam a ela. tudo o que eu não planejei aconteceu. foi rápido demais, foi diferente de tudo aquilo que eu imaginava que seria capaz, foi de improviso, foi sutil e ao mesmo tempo um ímpeto, uma coisa dessas sem atenuantes. em tão pouco tempo, mais do que planejei pra um prazo talvez até longo demais.
e a minha vida virou de cabeça pra baixo. não uma, mas umas vezes que nem sei quantas. e eu conquistei coisas sem saber que conseguiria, eu levei o pessimismo a sério demais e me enganei. eu me acostumei com o que antes gostaria de ter entrado de cabeça. eu aceitei o que antes eu buscava conquistar. eu recebi meio que provisoriamente algumas dessas coisas que são tudo, menos provisórias. e eu dormi noites e noites certa de que tudo estava bem e que, por pior que fosse algo que pudesse acontecer, bastava apenas acordar e resolver. ou confiar naquilo que nos protege enquanto realizamos sonhos.
e eu fiz merda por não saber o que fazer. eu cometi erros, porque achei que estava acertando. mas principalmente, achei que podia ferir aquilo que não fazia parte de mim, porque na realidade talvez isso bem fosse um teste de resistência. uma forma de dizer que se é pra dar errado, que pelo menos eu esteja prevendo.
e agora estou aqui, sem saber o que fazer. eu já cometi a tirania da tristeza aguda. do lado de cá não é muito mais confortável, não. a tristeza é uma forma de luto, mas uma forma de provocar dor. é uma forma de privar dos outros o que somos. é uma forma de impedir que os outros sofram. é uma forma de enfiar sua própria dor em múltiplas projeções de dores mais saturadas e cortantes que se espalham. eu sinto culpa, eu sinto medo, e, não raro, sinto que não é mais tão possível sujar apenas a ponta dos calçados quando o leve indício de que algo pode estar errado me aprisiona de novo nessa areia movediça como o cavalo branco de um indiozinho. eu nunca mais soube como pedir desculpas. eu nem sequer sei o que é ferir. eu também não sei lutar contra o casulo hermético onde os sentimentos alheios se escondem. eu só sei que a dor do outro é uma afronta, uma ofensa, um assalto. porque ela sempre diz que a gente não tem direito, ao menos por enquanto, de sentir dor também. e se, na esperança de poder aliviar nossa própria dor, a gente tentar resolver a dor do outro e não conseguir, nos resta só sumir, porque a impotência é ainda mais tirana.
[ Penkala ] 01:42 ] 0 comentários
aí tu tá com a calça xexelenta de pijama, aquele das caveirinhas, já desbotada. sente a mão quente do guri na tua perna e ele diz: "eu gosto tanto desta calça".
né?
[ Penkala ] 21:42 ] 3 comentários
no início deste ano eu publiquei algumas resoluções. estamos quase no fim do sexto mês e eu resolvi dar uma olhada nas resoluções, já que minha vida mudou bastante de lá pra cá... e a última resolução era chegar a 31/12/2011 com pelo menos 80% da lista de resoluções CUMPRIDA. das 42 resoluções, até agora, cumpri 16. preciso apenas cumprir as outras 26 nos próximos 6 meses pra que tenha fechado 100% da lista.
acho que talvez eu consiga, hein?
[ Penkala ] 01:56 ] 2 comentários
manual do jovem anarquista
quando vim (do que todo mundo chama de interior, mas eu me recuso a chamar Pelotas de interior, embora saiba que é) morar em Porto Alegre, e fiquei meses sem emprego, tomei alguns dos piores choques. não ter amigos, nem família, e nem grana, numa cidade grande (sim, PoA é uma cidade grande. perto de São Paulo ou Nova York, não. mas é, sim, uma cidade grande), foram alguns dos motivos pra tomar esses choques da vida. mas o fato de em Porto Alegre se pagar muito mal pelo trabalho de qualquer mortal e de a comida aqui ser caríssima (não raro, os restaurantes comuns servem uma comida ruim, perto da sempre gostosa comida de Pelotas) foram duas das primeiras verdades que esta cidade me jogou na cara.
[ olha, eu enrolo pra escrever. eu escrevo muito pra dizer uma coisinha mínima. se tu tá lendo isso pela primeira vez, acostume-se. pros leitores costumazes... bom, vocês já sabem disso, né? ]
aproveito pra dizer que adoro Porto Alegre (quando vim morar aqui, detestava) e que acho que posso vir a morar fora daqui, mas vou sentir muita falta.
meu primeiro emprego aqui foi a prova dessa péssima mania de gaúcho de sub-pagar (tem hífen isso?) qualquer serviço. eu ganhava mal pra burro. alguns lugares pagavam melhor, mas tinham também esse esquema que sempre achei odioso na nossa querida área da comunicação: sujeito não tinha hora pra entrar (diretor de arte começa a trabalhar lá pelas 9h30, 10h...); mas também não tinha hora pra sair (pudera começar a trabalhar 10h! nego saiu da agência às 3h!). eu ganhava menos de 700 reais e pagava um aluguel que era mais da metade disso. mas a piada mesmo era o "vale refeição" (sim, era piada entre os colegas, inclusive). bom... consta na lei trabalhista que o funcionário que trabalha 8h deve ter uma das 3 opções: ou ganha vale transporte e tempo pra ir em casa almoçar, ou tem cantina com comida fornecida pela empresa ou ganha vale-refeição. eu trabalhava em uma empresa dessas que dá vale-refeição.
opção perfeita pra empresas que sabem como obedecer a lei sem precisar desobedecer a regra básica do capitalismo: obter mais lucro, mesmo que às custas de qualidade, detrimento dos funcionários ou fornecedores, etc... em 2003, quando a maioria dos lugares já praticava o vale-refeição de no mínimo 10 reais, o que a empresa onde eu trabalhava pagava era de 5 reais. já era assim havia eras e continuou assim por ainda alguns anos depois de eu ter saído de lá. já alarmava pelo valor em si, não fosse o detalhe: o escritório ficava em uma área-semi-nobre de Porto Alegre. os restaurantes mais próximos, portanto, eram bem caros.
e quase sempre péssimos.
aí tinha esse tal restaurante que ficava bem pertinho do escritório. e ele tinha uma comida de média pra ruim. (eu, que cozinho bem, achava ainda pior) e não bastasse a gordura extra que colocavam naquela comida, o valor do buffet por peso sempre relacionava meia dúzia de grãos e uma folha de alface a um valor alto. buffet por quilo é a alegria do operariado, né? pois esse, não. invariavelmente, um prato mal servido sempre me custava no mínimo 10 reais. meio do mês e meus vales acabavam. ou eu trazia sanduíche de casa, né? sempre a opção dos jovens e mal-alimentados diretores de arte em início de carreira numa cidade como Porto Alegre.
eu, que estava acostumada a comer bem e barato em Pelotas, comendo uma comida ruim, mal feita e cara. não era o tipo da coisa que me fazia gostar da cidade, né?
a única maldita coisa naquele restaurantezinho de bosta era o caldinho de feijão.
sexta-feira. dia de feijoada. a culinária mineira daquele restaurante (mineira com um toque chinês, porque a comida tinha mais óleo que todos os rolinhos primavera do China in Box juntos em um ano) primava pelos trocentos tipos de feijoada neste dia. e tinha o meu querido caldinho de feijão. bem tratado na pimenta. sempre quentinho. servido numa cumbuquinha fofa. e CORTESIA.
aos que esperavam uma mesa era destinada uma fila de jovens operários de bairro demi-nobre segurando as cumbucas cheias daquele caldinho. em tese, qualquer um podia servir até mais de uma porção daquele caldo.
e eu já disse que era cortesia?
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aqui, preguiçoso leitor que não tem paciência de ler todo o prelúdio, começa o relato objetivo deste manual do jovem anarquista. cuzão!
bom. caldinho bom, quentinho e gratuito num restaurante que consumia injustamente meus míseros vales-refeição, à ordem de dois por almoço, em troca de uma comida muito mais ou menos? aqui está o contexto, amigos, de onde surge a oportunidade anárquica.
passei a ficar a semana inteira esquentando comida congelada no microondas da empresa ou comendo sanduíches. pra chegar na sexta e fazer meu pequeno ato de terrorismo intelectual político. comia duas, três cumbuquinhas daquelas, cheias do caldinho. depois servia um prato de leve salada, exagerando nas alfaces, agriões e folhas em geral. e gastava menos que um vale-mísero-de-5-reais-refeição.
na mente podre da maioria dos capitalistas axilares, que não têm nenhuma noção de política mas são capitalistas porque isso os alivia da culpa do consumismo e da vergonha de viverem num mundo injusto e continuarem querendo perpetuar a injustiça, o que eu estava fazendo era uma ofensa e uma infração ou algo que o valha. na minha mente de quem não pretende ser oprimida e nem pretende oprimir, e de jovem operária ganhando uma miséria pra que, às custas do meu trabalho, outros pudessem ter seus luxos cada vez maiores, eu estava exercendo meu direito lógico à compensação. pois se eu pago 10 reais por uma comida de merda que custaria 5 em qualquer lugar normal, nisso já está incluso até esse pequeno ato anarquista.
não se preocupem, capitalistas de plantão, sempre prontos a fazer um tsc tsc tsc. o restaurante continua de pé. com uma comida péssima vendida a um preço cada vez mais ofensivo. mas aquele caldinho de feijão me manteve firme e forte pra suportar o período de adaptação a uma cidade grande, que paga mal e cobra caríssimo por tudo. firme e forte o suficiente pra fazer o que eu queria da minha vida: estudar, terminar mestrado e doutorado e hoje estar aqui dando risada desse episódio bizonho da minha vida. e, também, com saudade do caldinho.
[ Penkala ] 17:47 ] 4 comentários
ou talvez eu seja como todas as mulheres bobinhas e fresquinhas do mundo que esperam algum gesto supremo de romantismo ou alguma surpresa fofa mimosa querida que me fizesse esquecer que passei um findi de merda sem graça estúpido idiota em que me dediquei basicamente a fazer coisinhas boas no fogão e corrigir trabalhos de alunos (ou dar sermões porque alguns textos foram copiados da internet).
[ Penkala ] 23:24 ] 2 comentários
gtalk
(quando teu namorado fica se declarando pra ti no gtalk e tu fica pensando bobagem e tem certeza de que ele vai é rir em vez de ficar ofendido)
(00:50:37) Diogo Marques: E no meio de tanta gente eu encontrei você (mentira, eu entrei no bus por último, EU que te encontrei)
Entre tanta gente chata sem nenhuma graça, você veio (eu inclusa entre as chata e sem graça)
E eu que pensava que não ia me apaixonar
Nunca mais na vida (né? medo!)
(00:50:56) Diogo Marques: Eu podia ficar feio só perdido (eta! coitado!)
Mas com você eu fico muito mais bonito (me chama de AVON!)
Mais esperto (salve a professorinha!)
E podia estar tudo agora dando errado pra mim
Mas com você dá certo
(00:51:09) Diogo Marques: Por isso não vá embora
Por isso não me deixe nunca nunca mais
Por isso não vá, não vá embora
Por isso não me deixe nunca nunca mais
(00:51:19) Diogo Marques: Eu podia estar sofrendo caído por aí (todo remelento, estronchado entregue às bebida)
Mas com você eu fico muito mais feliz
Mais desperto (mentira. dorme de não acordar nem com banda de música!)
Eu podia estar agora sem você
Mas eu não quero, não quero (mala)
(00:51:39) Diogo Marques: Por isso não vá embora
Por isso não me deixe nunca nunca mais
Por isso não vá, não vá embora
Por isso não me deixe nunca nunca mais (ok, é fofo e não tem como chinelear a música aqui)
[ Penkala ] 00:42 ] 2 comentários
60 dias com ele
tinha esse negócio que o pessoal vivia me dizendo... que quando a tese acabasse, eu ia encontrar alguém. claro que eu não cria. primeiro, porque chega uma hora que tu cansa de procurar e tu cansa de achar os errados e tu cansa de tomar fora e tu cansa de machucar pessoas e tu cansa, especialmente, de te machucar. segundo, porque isso me parecia tipo fantasia. ah, tá que vou encontrar alguém justo quando acabar a tese, né?
porque na minha cabeça, todo aquele drama era sinal de algo verdadeiro. encontrar alguém nas circunstâncias ideais seria tipo pedir demais.
na minha cabeça, seria extremamente romanesco de filme essa coisa certinha. então eu achava que ia ser dã-rã-ma de novo. e eu ia sofrer. e ia desistir de novo. e me fechar. de novo. porque eu acho que pensava que não merecia, né?
não que eu não tenha pensado: gente, imagina eu achar o cara mais sensacional justo agora que tou nesse estado de trabalho de parto de tese! acho que nem quero, viu?
mas aí não foi bem "assim que tu entregar a tese" porque foi no dia seguinte.
(tanto melhor, né? meus amigos me viram quando entreguei a tese. no dia. eles que sabem a cara que eu tava. cara esta que tava piorada por conta de um período de uma semana em que dormi umas no máximo 16 horas somando tudo. eu cheguei a dar aula uma noite depois de 2 dias sem dormir, dormir 3 horas e emendar mais um dia de trabalho e uma noite de aula. aí imagina o dia seguinte, né? em que levantei cedo, corri o dia todo, e fui dormir mais de uma da manhã do dia seguinte! então assim, dia 4 de março eu tava na zombie walk de um morto-vivo só.)
aí eu fugi de casa. fui pedir asilo político na terrinha.
e lá estava. aquele que tinham me prometido achar.
no início, o fato de conhecer alguém numa situação inusitada + estar sozinha + a pessoa ser bonita + eu estar livre da tese (por ora) me assustou tanto que eu pensei: ah, não! de novo criando fantasias que só vão te levar pra mais decepção? de novo forçando a ilusão? de novo pensando que isso pode ser justamente um sinal? me fechei. tentei nem prestar atenção.
mas lá estava. duma forma que não tinha como ignorar. duma forma inusitada mas como se fosse a coisa mais normal. lá estava, aquela cara que eu nunca tinha visto, mas ao mesmo tempo parecia que eu sempre tinha conhecido. não no nível "te conheço de algum lugar, certamente". no nível "ok, é alguém que eu conheço" e nem penso mais nisso. e foi quando eu conheci essa pessoa que é tão diferente e tão igual. que ri das mesmas piadas, ri das minhas piadas, me faz rir. que é verdadeiramente engraçado, não apenas superficialmente. e tava lá essa pessoa que escuta músicas legais. e que gosta de bicho. e que cuida de mim. e que é legal com meus amigos. e que é a pessoa mais sem noção do universo. e que acha bonitinho quando eu "arregalo" os olhos.
tipo.
pára tudo.
parece bobo. eu sei. mas é tipo essa cara que eu faço, levantando a sobrancelha e abrindo bem meus olhos. é a minha cara de WTF?! parece bobagem, eu sei. mas é que é tipo uma coisa que eu faço o tempo todo. porque eu estou meio que sempre fazendo o WTF?! e não deve significar nada pra ninguém. mas pra mim, sim. pra mim significa. porque foi fazendo essa cara que ouvi uma das coisas mais doloridas que eu poderia ter ouvido de alguém que eu tinha escolhido ficar pra sempre. foi fazendo essa cara que eu ouvi dessas verdades que as pessoas dizem sem pensar quando elas já estão com aquilo entalado. e não foi culpa minha. dessas coisas que tu diz quando tu despreza ou odeia ou tá com nojo de alguém, mas nunca confessa. aí tu diz sem querer, num ato falho.
pois é. alguém que acha bonitinho quando eu faço minha cara de WTF?! (que às vezes pode ser também uma cara de "diz alguma coisa, pelamordedeus!"). não bonitinho as in: "é. é bonitinho.". é um achar bonitinho as in "eu acho TÃO bonitinho quando tu faz essa cara!".
e faz hoje 2 meses que eu encontrei esse jihad joselito por aí. meu malvado favorito. desavisada. depois de entregar a tese. e disse: "vamos trocar e-mails". e até hoje eu não esqueço dele escrevendo meu nome errado e eu corrigindo. porque estava com medo de ele não me achar. porque eu já tava me acostumando, depois de 3 horas de viagem e papo inusitadamente divertido, que aquela pessoa valia a pena. um jihad alto que joga world of war craft. meu companheirinho de aventuras. ogro que só eu.
porque na vida é só uma questão de nunca se entregar pra quem te magoa quando tu faz a tua cara de sempre. que parece que não vê a tua beleza (a beleza que só as pessoas que gostam enxergam), ou parece que vai se quebrar se disser o quanto tu é bonita (por dentro, que seja, mas por fora também). e dar um voto de confiança pra quem diz que tu "fica tão bonitinha fazendo essa cara". mesmo que tu duvide-o-dó que fique muito bonitinha fazendo aquela cara de WTF?! porque se uma pessoa diz isso, é porque tu é bonita e ponto final. e aí tu percebe que não é mais nem uma questão de dar um voto de confiança. é apenas se permitir gostar de alguém a ponto de entregar o sono pesado nas mãos dessa pessoa. a ponto de acreditar, de novo, que mesmo fazendo cara de WTF?! tu pode ser bonita.
(pra isso ficar mais brega, só se tocar SANDRA ROSA MADALENA)
[ Penkala ] 00:13 ] 2 comentários
nunca mais vai ser o mesmo. acostume-se com isso. nunca mais a confiança pode ser a mesma, nem a cegueira. nem a entrega. nem o apego. nunca mais vai ser a mesma coisa e quando tu te der conta de por que, vai dar raiva. porque apesar de todos os machucados, tu é obrigado a seguir em frente. mas cada machucado desvia tua rota um pouco. muda lá o íntimo, muda lá dentro, muda bem fundo. te transforma num monstro repleto de cortes fundos e cicatrizes horrendas. mas um monstro de resistência. um monstro de superforça. e não há nada que assuste mais que alguém que já muito sofreu. porque é uma coragem diferente. é uma coragem de quem sabe que pode sobreviver.
até o dia em que tu encontra paz. dentro e fora do teu coração. até o dia em que tu encontra uma posição confortável. na cama, dentro de ti, no banco do ônibus. pra dormir. até o dia em que tu consegue fechar os olhos e dormir profundamente sem medos, sem estar pronta pro sobressalto, sem medo de expôr tudo. até o dia em que tu parece ter voltado de viagem e finalmente chega em casa e percebe que na verdade não esteve em casa esse tempo todo. até o dia em que tu olha no olho da vida e não fica com medo a ponto de desviar o olhar. até o dia em que tu pode finalmente sentar, tirar os sapatos, tomar um banho e dormir sem medo de que o amanhã chegue.
[ Penkala ] 18:08 ] 2 comentários
a semana foi corrida. a semana foi um turbilhão. parece que aquela metáfora de vida começando, de ciclo se fechando, era concreta. e hoje, uma outra sensação estranha. ontem, a sensação estranha de que não tinha nada pra fazer e que poderia dormir o quanto eu pudesse. hoje, uma nova sensação estranha. igual ao que sempre sinto quando está prestes a acontecer algo ruim. só que desta vez, a sensação é boa. e me dá uma estranha esperança.
[ Penkala ] 04:33 ] 0 comentários
neste lugar tinha um post bem puto da cara de como eu descobri que o que eu achava que tinha sido escroto, foi mais escroto ainda. tinha um post muito irritado falando do quanto é ruim saber que aquilo que tu achava que ainda tinha sido decente foi, na verdade, mais cretino do que tu pudesse sequer imaginar.
mas eu não vou publicar esta merda. porque, cara, sério mesmo: gente escrota não merece nem a energia que eu gasto com sinapse. que a vida se encarregue, porque a césar vai ser dado o que é de césar.
[ Penkala ] 03:37 ] 1 comentários
quando eu leio ISTO, eu penso que a pessoa que vai ficar comigo e com quem eu provavelmente vou ficar por (gostaria) toda minha vida tem que gostar de cachorro. e entender quando eu estiver lendo essas coisas e começar a chorar. não achar nunca ridículo quando eu fico profundamente emocionada com esses troços. e saber que se um dos meus bichinhos tiver numa situação igual, eu vou precisar que alguém me segure, porque eu vou estar desmoronando por dentro.
[ Penkala ] 04:36 ] 0 comentários
OS 10 MANDAMENTOS DO CACHORRO
eu traduzi, pra quem não entende inglês. e tem gente que ainda acha isso tudo uma grande bobagem... eu chorei lendo isso. normalmente, algumas pessoas fazem tudo ao contrário... porque "é pro bem do bicho". na verdade, isso é o que é melhor pra si (como bater no animal pra "disciplinar").
1. Minha vida dura de 10 a 15 anos. QUALQUER SEPARAÇÃO DE VOCÊ SERÁ DOLOROSA PRA MIM. lembre-se disso antes de me comprar.
2. ME DÊ TEMPO PRA ENTENDER o que você quer de mim.
3. TENHA CONFIANÇA EM MIM. é essencial pro meu bem-estar.
4. NÃO FIQUE BRABO COMIGO por muito tempo, não me tranque como forma de castigo. você tem seu trabalho, sua diversão, seus amigos. eu tenho apenas você.
5. FALE COMIGO ÀS VEZES. mesmo que eu não entenda suas palavras, eu entendo sua voz quando você fala comigo.
6. SAIBA QUE SEJA QUAL FOR A FORMA COM QUE VOCÊ ME TRATAR, eu jamais esquecerei.
7. lembre-se antes de me bater: eu tenho dentes que facilmente esmagariam os ossos da sua mão, mas EU ESCOLHO NÃO MORDER VOCÊ.
8. antes de você me repreender por não cooperar, por ser teimoso ou preguiçoso, SE PERGUNTE SE ALGO PODE ESTAR ME INCOMODANDO. talvez eu não esteja recebendo a comida adequada, ou tenha estado fora, no sol, por muito tempo, ou meu coração esteja ficando velho e fraco.
9. CUIDE DE MIM QUANDO EU ENVELHECER. você também vai.
10. ME ACOMPANHE EM JORNADAS DIFÍCEIS. nunca diga "não aguento ver isso" ou "deixe acontecer na minha ausência". tudo é mais fácil pra mim se você estiver lá.LEMBRE-SE DE QUE TE AMO
[ Penkala ] 22:15 ] 1 comentários
eu tenho essa impressão de que o mundo diz algumas coisas pra gente e que nem sempre a gente entende. há tanto tempo uma voz me diz pra eu ir embora pra sempre. há tanto tempo essa voz fica dizendo: aproveita e vaza e nunca mais volta. e eu tenho medo. eu acho que tenho medo porque eu preciso ter onde me segurar, mas eu tenho mais medo porque eu sinto que assim, mesmo, é que eu ia ver que ninguém ia sentir minha falta. não os meus pais e amigos. mas ninguém mais. e talvez por isso eu ainda fique aqui. o que é ridículo, porque pra que diabos eu vou ficar num lugar onde não faço diferença?
e há tanto tempo a vida vem me dando sinais de que eu devo mesmo pegar minhas coisinhas e vazar. porque ser a única que fica, ser a que vê os outros sempre dando as costas, ser aquela que espera... isso é uma merda. vai embora, ana paula, feito quem foi sem nem olhar pra trás e nem voltar pra pegar seus pertences... vai embora feito quem nunca nem veio dizer que não ia ficar. vai embora feito quem não teve coragem de não entrar na tua vida sabendo que ia pra nunca mais voltar. vai embora, feito quem sempre ia embora só pra te humilhar depois. vai. vai embora como os que te deixaram falando sozinha. como os que fizeram silêncio quando tu falou. vai embora feito quem disse que já voltava e nunca mais deu sinal. feito quem teve medo, pediu um tempo, e nunca mais respondeu. vai embora feito quem te enrosca num véu, te faz sentir feliz, e depois simplesmente desaparece. vai embora e não dá mais o ar da graça. vai embora sem nem dizer que vai. pega essa porra desse coração que não serve mais pra merda nenhuma e vai embora. porque quem sabe em outro lugar, ausência seja outro conceito.
[ Penkala ] 23:09 ] 0 comentários
um tanque entupido
Freud sempre vai explicar o motivo pelo qual, na casa dos teus pais, tu sempre dorme melhor e mais tranquilo. tu saiu de lá faz tempo, tu não gosta de como as coisas funcionam lá, tu não quer voltar a morar lá e nem quer deixar de ter a tua vida independente. mas alguma coisa faz com que tu durma decentemente na casa dos teus pais enquanto na tua própria tu não consegue ter uma noite de sono boa.
Freud diria que é porque tu sente conforto e proteção na casa dos teus pais. (a não ser que teus pais ou qualquer um deles que morasse lá fosse tão insuportável que tu não conseguisse nem ouvir a voz dele/s. o que não é meu caso). é porque lá tu não é o rei que precisa tomar decisões, é porque lá tu não tem que dar conta de tudo, é porque lá tu volta, virtualmente e de forma simbólica, a ser filha de novo.
mas tu pode fazer de algum outro lugar o teu lar. e a não ser pelo detalhe de que tu vai ter que dar conta de tudo, ser responsável pelas trancas e pelo gás e tudo o mais, tu pode, sim, transformar alguma outra casa em lar. seja morando sozinha, seja com marido, seja com marido e filhos. e eu sei que eu posso porque já fui feliz - um pouquinho - assim. morando de aluguel, o que era chato. e num apê que tinha lá seus problemas, o que me incomodava. mas eu fui feliz. um pouquinho.
só que aqui, onde eu achava que era infeliz porque EU tornava a casa o lugar de despejo das minhas frustrações e tristezas, eu sou infeliz porque não há jeito de uma pessoa ser feliz aqui.
desde o primeiro dia em que este apartamento foi escolhido, o passo foi infeliz. e como que um castigo por ter tomado a decisão de escolher ele sozinha, eu tive que cuidar de tudo sozinha também. este apartamento foi escolhido no meio de uma recuperação bem ruim de uma cirurgia chata. no meio do stress de um final de mestrado. no meio de uma crise no casamento. no meio de uma frustração pessoal que me deu um tombo apesar de parecer que tava tudo bem. o financiamento ocorreu no meio de uma negociação que envolveu uma corretora mau-caráter cretina e duas velhas filhas da puta e completamente loucas que só faltaram me internar, de tanto que me enlouqueceram. tudo nas minhas costas.
a reforma leve, que me dava a idéia de que tudo estava começando a entrar nos eixos, e a mudança, tudo se deu no meio de um encerramento de mestrado. tudo nas minhas costas. desde cuidar pros pedreiros não fazerem merda (eu, que nunca tinha lidado com nada parecido) até limpar a sujeira e o estrago que eles fizeram, passando por encaixotar minha vida toda num apartamento, limpar o apartamento que estava entregando e limpar este depois da "obra"... tudo nas minhas costas. minha vida pessoal desmoronando, minha frustração "profissional" piscando na minha cara, minha dissertação travada, minha saúde indo pelo ralo e no meio disso tudo ainda um encerramento de mestrado e duas seleções de doutorado.
desde que botei os pés neste apartamento, só fui infeliz. infeliz com pequenos momentos de alívio. mas infeliz. infeliz doente, infeliz frustrada, infeliz exausta, infeliz traída, ignorada, tratada feito idiota. e, além de tudo, infeliz obesa e com uma auto-estima (não tinha nem ajuda pra essa auto-estima melhorar, na real) quase inexistente. nas paredes deste apartamento estão todas as frustrações, e todas as solidões que eu passei, mesmo quando não estava sozinha. estão decepções, deslealdades. estão todas as vezes que fiquei doente. estão todas as vezes que chorei sozinha. estão todos os stress e todas as rasteiras que eu recebi do mundo.
nestas paredes estão todas as tentativas de deixar este apartamento legal e por mais que os outros digam que ele até é bem bonitinho, eu só vejo horror aqui dentro. nessas paredes estão eu e um cachorro nos virando pra lidar com a sacanagem alheia. nessas paredes estão as tantas vezes em que não consegui comer ou dormir porque já não tinha força pra viver. estão gravadas todas as vezes em que tentei acabar com tudo logo de uma vez. e todas as vezes em que andei de um lado pro outro por mais de 2 horas sem parar, chorando. estão eu ter enlouquecido. estão eu voltar sempre sozinha. estão eu sentir humilhação, estão eu ter que mandar meu cachorro embora porque não podia mais cuidar dele. estão eu ter que cuidar de 4 passarinhos quando eu não tinha mais condições nem de ouvir um som sequer. aqui estão todas as vezes em que fui tratada feito lixo, e todas as vezes em que achei que ia ser feliz e tomei logo em seguida uma resteira absurda.
minha irmã disse pelo menos umas duas vezes, quando conheceu este apartamento, que não se sentia bem aqui. eu juro que tentei ignorar e até dizer que ela tava fantasiando. mas EU também nunca me senti bem aqui.
é incrível como uma casa pode ser um lar ou pode ser uma prisão. uma solitária escura de onde tu não consegue sair, no princípio, porque tá trancado. depois, porque tu enlouqueceu. nada dentro deste apartamento funcionou e jamais vai funcionar. se eu acreditasse nessas coisas, eu diria que este lugar foi construído sobre um cemitério indígena, enterraram uma cabeça de cavalo debaixo desse chão, emparedaram um homem nesses tijolos e o cimento que reveste as paredes foi misturado ao sangue de 2 milhões de crianças inocentes. e que várias velhas morreram aqui, agonizando.
eu me sinto melhor em qualquer lugar. aqui, eu não durmo direito. e quando durmo, tenho pesadelos. aqui eu vivo provisoriamente. aqui eu moro como se estivesse numa prisão. eu tenho um teto sobre a minha cabeça. mas parece que ele está me esmagando. eu tenho certeza de que infelicidade é uma coisa que as paredes absorvem e concentram. eu nunca mais abri janelas. ou porque elas são um saco de abrir, ou porque estragaram e não tem mais como abrir. está cada vez mais difícil manter dentro disso um lugar onde eu consiga manter alguma sanidade. o tanque que entupiu de forma irreversível é só mais uma metáfora. pra minha vida que simplemente TRAVOU.
[ Penkala ] 17:54 ] 0 comentários
sem mais,
love,
Penny
[ Penkala ] 22:44 ] 0 comentários
tava aqui lendo a Renata e rindo e me identificando, e balançando a cabeça e concordando com o motivo pelo qual leio o tantos clichês há anos e tal e aí me dei conta do que eu escrevo neste blog aqui. se é que alguém ainda tem saco de me ler. como a Renata disse lá, parece, né?, que a minha vida gira em torno de coração partido, desilusões e tal. mas, também como ela, é que o que rende texto pro blog é isso, né?
todo o resto que eu faço renderia textos também porque nos últimos, sei lá, 5 anos, nada dá certo.
e, bom, nos últimos, sei lá, 5 anos, dá certo de alguma forma porque tou aí viva acabando um doutorado inteira e até mais bonitinha e tal. ou menos traste, depende do referencial adotado, né Einstein?
mas parece que eu só vivo pros corações partidos. ou melhor, pro MEU coração partido. além de monotemática, sou egocêntrica. e blá blá blá.
bom, o blog é meu, né? talvez por isso ninguém esteja lendo e eu esteja aqui falando com um mundo branco tipo em THX 1138. mas não. minha vida tá cheia de problemas. ocorre que esses problemas são ou ruins de falar, ou envolvem outras pessoas que não acho que devam aparecer aqui, ou são problemas que resolvo na minha ciência destrambelhada: discutindo metodologia em bar irlandês com um regente de orquestra bebum e um cineasta igualmente bebum. criticando afiadamente os trabalhos dos outros porque a) me importo com eles e acho que são inteligentes e merecem ser criticados pra crescer e b) porque isso me ajuda a pensar no meu trabalho.
mas em se tratando do meu coração partido... bom... não tenho como resolver. não tenho como fazer nada. estar sozinha é uma merda, e ser sozinha é ainda pior. tem dias que o peso disso me faz chorar (como diz a própria Renata: chorar de boca aberta e fazendo sonzinho). tem dias que o peso disso me faz ficar 3 dias dormindo menos de 3 horas por dia. tem dias que isso me faz querer morrer de verdade. e tem dias que eu sinto é muita raiva.
mas o que me faz rir muito no blog da Renata - de quando ela diz: gente, é por isso que não tenho namorado, depois de contar uma história dela com algum menino e de como ela fala e faz coisas que a maioria das pessoas não faria estando com um "pretendente" - é o que me faz pensar, agora, com muita vontade de chorar, que gente, é por isso que eu não tenho um namorado.
não um gente, é por isso que eu não tenho um namorado assim, fofinho que nem os da Renata. um gente, é por isso que eu não tenho um namorado mais hardcore. mais não estou bem com a vida ainda. mais quero que todos morram secos.
é horrível, né? sim, é. porque sim, eu sou insuportável. sim, eu sou difícil. sim, eu sou chata com as coisas que acho que devo ser. parece bonitinho, parece beatnik, né? oh, que bonitinho ela fazendo a poeta maldita! oh, que fofa encenando a mistura da Sylvia Plath com a Blanche Dubois.
não. não é que fofa porra nenhuma. é um inferno, todo mundo sabe disso. é um inferno eu me apaixonar e me entregar e querer uma vida normal como a de todo mundo, indo ao super com o marido, pedindo pro namorado me buscar porque tou molhada com frio com febre e sem guarda-chuva. é um inferno ver as pessoas sendo felizes e eu não conseguindo isso pra mim. é um inferno passar mal e não ter quem cuide de mim e não entender por que diabos eu estou sozinha.
porque, cara, eu não entendo. não acho que eu seja grandes merdas, não. mas tem tanta merdinha de gente besta sendo feliz por aí, por que eu não? porque eu sou idiota e boto pra correr todos os caras sendo idiota? não. porque eu sou eu mesma e ninguém tolera isso? não. porque eu tenho manias bizonhas que assustam as pessoas? não. a não ser que as pessoas sejam tão mimimi a ponto de achar que eu comer melão com pimenta ou pepino em conserva com chocolate seja assustador. aí, ok.
eu não tenho um namorado por que?
comecemos pelos que quiseram e eu não quis. vamos dividir esses em a) pessoas fodas por quem eu não me apaixonei e b) pessoas assustadoras que me metem/meteram tanto medo que não consigo dormir às vezes lembrando de como elas eram/são. péra. arranja um espaço aí pros que queriam e eu sabia que não ia dar certo e nada contra os meninos e tal mas nada a ver.
por que os que eu quis com toda a força do meu coração não me quiseram?
se fosse uma coisa assim... difusa, né? se fosse cada um por um motivo. mas não. todos basicamente não me quiseram com as mesmas características. todos formando uma massa tão imensa e pesada de uma coisa só que isso só me faz pensar: problema sou eu.
ou, pior, o problema está comigo.
a gente não manda no coração. ah, tá. essa eu sei. entendo, de verdade. mas, né? não manda no coração, mas eu sou foda? não manda no coração, mas eu sou especial? não manda no coração, mas eu sou a mulher mais tudo de bom neste mundo? não manda no coração mas gente, tu é a guria mais massa do universo e merece tudo de bom na terra quiçá no universo talvez se descobrirem outro sistema solar quem sabe, né? não manda no coração, mas não consegue não gostar de mim, né? não manda no coração, porra, eu entendo. eu juro que entendo. mas tou de saco cheio, porque ou esta merda é uma puta duma coincidência do caralho, ou os caras usam sempre essa mesma conversinha, ou o problema é comigo, né?
porque eu preciso confiar nas pessoas, preciso conhecer, preciso ver como é no dia-a-dia. preciso ver como se comporta em outra situação que não seja naquela coisa "clima de paquera" (blé!). então isso diminui muito as minhas chances. mas também diminui o número de otários que eu teria que aturar até conhecer alguém legal que, mesmo não dando certo, mesmo rolando a gente não manda no coração, ainda considero gente legal. morro de medo de otários.
não que eu não saiba lidar com eles. eu sei. otários devem ser tratados como otários. e eu não vejo problema nenhum em expressar o que eu penso a respeito de otários. problema é que quando os otários são os caras que te convidaram pra sair, fica complicado ser eu. porque cansa lidar com essa de ver um cara sendo otário e agindo na boa como se nada tivesse acontecendo e nunca mais olhar na cara do otário. até porque se nunca ninguém disser pro animal o que ele faz que faz com que ele seja tamanho idiota, talvez ele continue achando que tá abafando.
me resta é um monte de caras legais que se não fosse ter que me aturar, ficavam comigo. e não tou falando em aturar porque eu seja cheia de manias chatas. sim, eu sou, né? sou mesmo. tu aí que tá lendo isso porque viu meu perfil no twitter e achou que eu sou uma fofura e tá pensando em sair comigo: tu mesmo! tu fica sabendo que eu sou horrível. não, não sou ciumenta. nem dou piti. nem gasto muito. nem sou feminista demais. nem tenho mania de limpeza. nem cometo erros de ortografia que te fariam ficar corado como se o blush fosse maquiagem 24h. tu, aí, ó: desiste. porque eu quero muito da vida. eu quero compromisso. eu quero um cara que me leve a sério. eu quero um sujeito que faça tudo por mim (eu vou fazer tudo por ele, né?, então quero o mesmo, porra). desiste porque eu não bebo até ficar tonta e danço funk porque é festa. (eu não danço funk nem de brincadeira) porque eu levo relacionamentos a sério. porque eu tenho mais de 30 e não tenho paciência com homem infantil, que não sabe o que quer, que fica confuso, que não assume as broncas e que não tem colhões. eu acredito em fidelidade, e acredito ainda mais em lealdade. eu acredito em companheirismo. tu, aí, ó: eu não sou grudenta, mas eu gosto de estar junto e acho que namorados precisam estar juntos. precisam passar tempo juntos. precisam fazer coisas juntos. e não, não compreendo o motivo pelo qual um cara queira sair o tempo todo sem a namorada. eu sou amiga dos caras, eu falo sobre mulheres, e carros. eu odeio futebol (mas, ô, se tu gosta, azar, né?). eu falo palavrão. eu não bebo até cair, mas sou um marinheiro no meio da gurizada. (e, ok, eu arranjo briga em bar se bebum metido a machão vier pra cima de mim se provalecendo).
(me perdi. eu ia dizer dos caras que ficariam comigo se eu não fosse tão... eu. mas acho que nem é por aí)
é que eu não tenho saco pra mimimi de gurizão eterno. não tenho saco pra desculpa esfarrapada. gente, é por isso que eu não tenho um namorado: todas as merdas que os homens dizem pras mulheres eu tou cansada de conhecer. e não tenho nenhum saco mesmo. so, cut the crap. prefiro meu coração partido agora que depois ele despedaçado. prefiro ver que um cara é um otário logo a ver que é um otário depois que eu vi que eu caí na do otário.
gente, é por isso que eu não tenho um namorado. porque eu quero ir pra lua e pra ir pra lua tu precisa levar a sério as instruções do foguete. porque eu não quero ser o general sozinha. porque, porra, cresce, né? caro gurizão, cresça. tu não é homem só porque pega mulher, meu bem. tu é homem quando faz o que um homem faz. e um homem faz coisa séria.
não encheu o saco ainda? taí ainda? tá lendo esta merda ainda? mesmo eu falando a mesma porra de coisa over and over again? ok. então se taí ainda, meu, eu cansei. eu cansei de verdade de falar essas coisas. cansei outras vezes, né? pode dar uma lida geral aí. monte de posts com CAN SAY. cansei e não vou falar mais nisso. cansei e vou ficar de boca fechada. cansei e agora vou ser é bem ruim mesmo. e o que que eu faço?
eu volto. eu me despedaço aqui. eu venho aqui chorar.
mas eu cansei. eu cansei porque da última vez que fiquei doente, tive que fazer canja pra mim mesma porque tava mal pra burro e precisava me alimentar. e eu tinha força pra levantar? eu tinha força pra ir aqui do lado comprar batatas? não tou falando em não ter forças porque tava deprimida. não tinha forças as in não sou fiasquenta e aguento tudo mas tava morrendo de dor e tonta e mal conseguia me arrastar até o banheiro pra vomitar.
(se tu não foi embora ainda, né?, depois de eu ficar falando sobre vomitar... então ok, vai ficando. quem sabe eu não fale algo mais classudo daqui a pouco? ou quem sabe comece a ficar engraçado, de tão patético)
mas eu cansei porque eu fico convidando um amigo pra ir ao cinema porque a porra da única sessão do filme é tarde e eu queria que ele me acompanhasse pra eu não sair sozinha na rua e eu nem quero nada com ele mas não quero que seja outro porque ele é amigo o suficiente pra eu me sentir à vontade e sei que não vou correr o risco de ele ser idiota. mas pá, ele é idiota e foge de mim como o diabo da cruz. e gente, eu não sou uma péssima companhia a ponto de ele não querer me aturar.
ou sou?
(eu nem falo mais no cinema! eu só dou risada, ou choro. ou tenho sustinhos. tão fofo eu tendo sustinhos, precisa ver.)
eu cansei de almoçar e jantar sozinha e então eu nem almoço e nem janto. eu cansei de tudo. cansei de estar sozinha o tempo todo. cansei de voltar sozinha, cansei de chegar sozinha. cansei de não ter pra quem desabafar, nem pra quem pedir uma massagem nas costas porque a luta simplesmente me detonou toda a musculatura.
foda-se. eu cansei. tu aí, ó. desiste. eu desisti também. porque na real, na real mesmo, o problema deve ser comigo. se eu soubesse, juro que mudava. mas não sei colé. então desisto. porque ou eu desisto, ou aceito otários. e otário, né?, não trabalhamos.
(preciso parar com o NÉ, né? mas foda-se também. o blogue é meu e toda aquela coisa que todo mundo já sabe)
tá, eu entendi. é que eu espero. eu tou esperando. "quando tu parar de esperar, aparece". ah, tá. que nem tu precisar de um ônibus e desistir de esperar e aí ele aparecer. se tu desiste de esperar, tu VOLTA PRA CASA SEM OLHAR PRA TRÁS, BOTA O PIJAMA DE NOVO E VOLTA A DORMIR. ou tu PEGA UM TÁXI. mas não tem essa de no que tu desistir de esperar, ele vem. que que tem de problema em eu esperar que exista alguém que preste nesta porra de mundo? alguém que preste e não tenha namorada. alguém que preste e não passe a agir como um otário porque não era bem isso e tal. que que tem de errado em eu querer pedir pro meu namorado me buscar porque tou molhada espirrando com febre com frio fazendo mimimi e sem guarda-chuva? que que tem de errado em sonhar que da próxima vez que eu ficar doente, vai ter alguém preocupado que vai vir aqui me ajudar a levantar porque eu simplesmente não posso mais?
o problema é que eu acredito em contos de fadas. eu acredito que deve ter um doido que vai me aceitar do jeito que eu sou. um idiota que vai comprar a briga. e que se for o meu idiotinha, vai ser idiotinha sem ser escroto comigo, sem ser um otário, sem fazer as idiotices que eu não suporto.
se o coitado for leitor deste blog, merece até um prêmio, gente. porque este blog tá pra ser tipo assim o maior gente, é por isso que eu não tenho namorado de todos os tempos.
[ Penkala ] 03:23 ] 1 comentários
depressão é...
quando tu te sente miserável e tem onde morar, o que comer, onde dormir, banho quente, livros;
quando tu te sente incapaz e tem dois braços que podem trabalhar;
quando tu te sente indefeso e sabe muito bem se proteger;
quando tu te sente impotente e tem duas pernas pra ir onde quiser;
quanto tu sente que tá amordaçado e tem boca pra falar, tem como falar, tem por onde se expressar;
quando tu te sente burro tendo um cérebro que pensa;
quando tu te sente inútil mesmo que tudo dependa de ti e tu cuide de tudo assim mesmo;
quando tu te sente um nada e muita gente ainda te enxerga e admira;
quando tu te sente sozinho no meio de tantas pessoas conhecidas e de tantos amigos;
quando tu não vê futuro mesmo que tudo o que tu mais faça seja traçar planos;
quando te humilham e tu não consegue levantar;
quando te ignoram e tu te sente invisível;
quando te mandam correr e tu te sente paralizado;
quando tu come e sente fome;
quando tu não come e não quer comer;
quando tu dorme, mas só sente cansaço;
quando tu fecha os olhos e só tem pesadelos;
quando tu não quer que tenham pena de ti, mas chora;
quando tu tá vivo, e te desespera;
quando tu tem tudo na cabeça, e não consegue transformar em realidade;
quando alguém te ignorar te machuca absurdamente;
quando alguém te decepcionar te deixa doente;
quando nada dá certo, mas tu continua levantando por medo de que uma hora a mais de entrega se transforme em um dia, e quando tu for ver, em semanas, e de repente, em anos.
é quando tu escreve sozinha pra desabafar porque não tem absolutamente ninguém pra ouvir o quanto tu tá... te sentindo miserável
[ Penkala ] 03:06 ] 0 comentários
resoluções pra 2011
primeiro, revisar as de 2010:
* deste blog, publicadas no dia 03 de janeiro deste ano de 2010
das resoluções pra 2010
escrever mais ficção; [não escrevi quase porra nenhuma de ficção ]
dormir de conchinha sempre que possível; [ sim, mas muito poucas vezes ]
acordar de conchinha sempre que possível; [ o mesmo número de vezes, praticamente ]
acordar alguém; [ sim, mas eles passaram, todos. e eu fiquei ]
ser acordada por alguém; [ quase nunca. eu acordo sempre antes e durmo sempre depois ]
publicar meu livro de contos; [ nope ]
enterrar meus dedos nos cabelos de alguém muitas vezes; [ aham. e, ah como eu gostaria de continuar fazendo isso! ]
comer menos doces e tomar mais água; [ \o/ isso eu consegui! ]
caminhar, além de boxear; [ quase... ]
manter o treino de boxe e aumentar a frequência pra 4x por semana; [ não deu, ficaram 3, mas por culpa da academia ]
cozinhar mais; [ nope ]
receber mais amigos na minha casa; [ quase nunca ]
arrumar as porcarias pendentes na minha casa; [quase tudo que é tralha entulhada eu dei jeito de vazar... ]
ir pra Floripa visitar a irmã ao menos uma vez por semestre; [ sim ]
fazer algo de realmente divertido nas minhas férias; [ não tive férias ainda ]
ter férias; [ pois é ]
juntar uma graninha pra viajar; [ não deu ]
ir mais ao cinema; [ fui, até. mas não tanto quanto eu gostaria ]
voltar a fazer meus trabalhos de arte; [ nope ]
usar mais vestidos; [ yep! \o/ ]
trocar meus óculos; [ ahn... nope ]
parar de tomar remédios; [ parei. mas preciso voltar a tomar. ou seja: grandes merda que parei! ]
defender uma tese e publicar isso tudo; [ nope. ainda ]
tirar A na tese; [ pretendo, né? ]
dar mais aulas; [ dei menos aula, mas por um bom motivo ]
ser uma professora menos cansada; [ ahn... ]
ir a Montevideo e Buenos Aires; [ nope ]
conhecer outras cidades no Brasil; [ conheci Curitiba e São Paulo ]
fazer minha dupla cidadania portuguesa; [ nope ]
aprender a montar filmes; [ nope. a não ser tosco style ]
publicar ao menos 4 artigos bons; [ nope ]
participar de mais congressos; [ nope ]
criar coragem pra fazer carteira de motorista; [ nope ]
falar mais em inglês; [ yap. mas menos do que deveria ]
fazer um checkup geral; [ sort of ]
ter os braços torneados da Michelle Obama; [ quase. quer dizer... bom, deixa pra lá ]
comprar um sofá confortável; [ nope ]
ir ao templo de 3 Coroas; [ nope ]
acabar de fotografar os prédios bonitos em Pelotas; [ nope ]
dar um jeito no meu espanhol; [ no. puta madre, no! ]
pensar onde vou fazer meu pós-doc; [ yap. já pensei ]
assistir a todos os filmes que eu tenho em casa e que ainda não vi; [ iiiiiiih. não. e ainda tem bem mais filmes ]
sair mais vezes pra jantar fora e menos pra almoçar fora; [ menos pra almoçar fora. e quase nunca pra jantar fora ]
gastar menos com besteiras (ah, nem gasto tanto assim!) e mais com livros e filmes; [ gastei muito com filmes e livros ]
ser menos crítica comigo mesma, menos afobada com o mundo, mais tolerante com as frustrações; [ kinda ]
chorar menos, dormir mais vezes sorrindo; [ ahn... nope ]
dormir mais; [ que vocês acham? ]
planejar menos e fazer mais; [ ahn... ]
me preocupar menos e [ o texto acaba aqui, por algum motivo que nem sei. mas é, eu me preocupo MAIS. ainda... ]
. . .
agora, as minhas resoluções pra 2011
me dar mais valor, me permitir sofrer menos, ser menos permissiva com os outros;
acabar meu doutorado bem e relaxar, pela primeira vez em 8 anos de Porto Alegre e 6 anos de pós-graduação;
viver mais offline e perder o vício de internerds;
publicar minha tese e minha dissertação;
estudar francês, melhorar meu espanhol, falar mais inglês;
visitar meus amigos em Nova York;
visitar meus amigos em Madri;
visitar meus amigos na França e em Portugal;
publicar mais artigos;
estudar tipografia mais a fundo;
estudar mais sobre a II Guerra Mundial;
mudar de casa;
ter menos medo, ter mais coragem, ser mais imperativa, me jogar de cabeça;
me entregar menos, receber mais;
enfiar muito meus dedos nos cabelos de alguém. um alguém. um alguém meu. um alguém por muito tempo. um alguém pra virar 2011-2012 comigo;
acordar mais vezes tarde sem sentir culpa;
viajar muitas vezes de última hora pra qualquer lugar;
fazer mais jantinhas pros amigos;
ver mais filmes, ir mais ao cinema;
aprender a costurar decentemente;
fazer um curso de fotografia;
fazer um curso de edição de vídeo;
colocar em prática meus projetos literários;
passar em algum concurso foda;
ter dinheiro pra livros, filmes, viagens;
voltar pro flamenco, treinar mais boxe, andar de bicicleta;
tirar minha carteira de motorista;
conhecer Berlin, a terra de onde todo mundo vive dizendo que eu saí;
deixar de esperar tanto aquilo que eu sei que não vai dar certo;
saber que enquanto durmo tem alguém me cuidando;
reclamar menos;
me realizar mais;
ignorar gente que me faz mal;
me dar o luxo de riscar da minha vida pessoas que não me acrescentam nada;
perder uns 5 quilinhos;
se não perder 5 quilinhos, não ganhar nenhum quilinho;
parar de me preocupar com meu peso;
ver o sol nascer mais vezes, mas não por estar indo dormir, exausta de trabalhar. mas por querer compartilhar isso com alguém;
aprender algo novo;
sentir que sou feliz;
brigar mais com os outros e menos comigo mesma;
pisar na areia, molhar meus pés no mar, mais vezes;
dar um "check" em pelo menos 80% desta lista.
[ Penkala ] 01:13 ] 0 comentários
corações de 1,99
aprender lições é difícil. não que eu seja burra. mas aprender lições na vida é muito difícil. porque a vida é o que acontece enquanto está acontecendo. é como tu querer estudar tua própria anatomia enquanto está vivo. difícil. e eu odeio admitir quando tou levando pau numa disciplina.
tu sabe, em teoria. só na hora do exercício é que tu erra. tu sabe no ensaio, mas quando a coisa é de verdade, tu faz tudo errado de novo. e o pior de tudo é que tu erra e dói. tu erra e fica mal. tu erra e é humilhado. tu erra e fica te sentindo um lixo.
mas tu vai aprendendo. aos poucos. devagar tu aprende que dar valor demais aos outros é bom. se eles merecem. se não merecem, isso dói. tu aprende aos poucos que se doar, só se for 10%. só se for com um pé atrás. porque depois tu fica sem nada. porque todo mundo sempre foge na hora em que tu mais precisa. e foge com aquele pedaço teu.
tu aprende aos poucos que se entregar é lindo, mas só funciona em filme. porque no mundo real, normalmente tu te entrega numa caixa linda, com um laço de fita rara, e a pessoa olha e diz: nossa, isso é tudo o que eu pedi na vida! isso é sensacional! isso é a coisa mais especial do mundo! e, na verdade, por trás daquelas palavras, quando a pessoa fecha a porta de casa e está sozinha na sala junto com o próprio coração, ela joga a caixa num canto. porque certamente existem coisas mais importantes. só que pra ti, tudo o que tu é e o que tu tinha, tá entregue naquela caixa.
ninguém tem noção, né?, do quanto dói. ninguém tem noção do quanto tu investe. e do quanto tu arrisca. e do quanto dói ver aquilo que tu tem de mais valor sendo tratado como qualquer porcaria que tu usa e joga fora. ninguém tem noção de que pessoas têm sentimentos. de que pessoas sofrem. de que pessoas saem machucadas quando arrancam tudo de dentro do peito enquanto o outro oferece um coração de 1,99.
sozinho, tu e a tua insônia, tu pensa que da próxima tu devia comprar logo uns 5 corações de 1,99 e, quando chegar a hora, dar eles. na próxima, tu pensa, é hora de entregar só 5%. é hora de fazer sofrer, é hora de chutar, de magoar.
mas tu não consegue.
porque tu é honesta com as pessoas. tu não usa as pessoas. ainda que seja pra matar a carência. tu é honesta e tu joga limpo. e tu sempre te fode por isso.
falta tu aprender a te dar valor. a te dar o devido respeito. porque se tu não souber te dar o respeito que tu merece, ninguém vai fazer isso. se tu correr atrás de quem não vale as tuas lágrimas, tu não tem respeito por tudo o que tu é. se tu ficar magoada porque aquela pessoa promete, promete, promete e promete e nunca cumpre, sempre te deixa na mão, tu não tem respeito por ti. porque se ela te deixa na mão, é porque tu entregou pra ela o que não devia.
da próxima tu aprende a ser cruel. tu vai penar, mas talvez isso mostre aos outros, mesmo que seja um sacrifício pra ti, que tu tem valor e que ninguém te achou no lixo, não. da próxima, tu aprende a dizer não.
tu aprende, aos poucos, que ser o estepe pra rodar os quilômetros que restam até uma borracharia é coisa de quem não se dá valor. tu aprende que estepe é estepe. tu aprende que tu pode salvar uma viagem numa madrugada de chuva. mas na hora de sair pros roteiros divertidos, estepe é lá debaixo da traseira.
tu aprende aos poucos que é fácil dizer que tu é foda. difícil é te querer mesmo quando nem tu mesma te tolera mais. fácil dizer que tu é especial. na hora da vida real, tu pode estar morrendo e ninguém liga. tu aprende aos poucos que tu é amiga, que tu é a pessoa com quem é muito bom conversar madrugada a dentro, que tu é sonho, tu é quimera, tu tá no pedestal. tu faz coisas tão bem que o diabo duvida. tu é a mocinha pra quem o vinho libera toda a verdade. só que quando tu mostra teus sentimentos, e pede apenas pra ser levada a sério... quando tu te torna real e a tua humanidade é feita de sangue com gosto de ferro e lágrimas salgadas... aí é conveniente fugir. é conveniente dizer o quanto é difícil dizer que não. tu aprende que pessoas que enchem a cara e te tiram pra dançar e te dizem a letra da música no ouvido, são as que no dia seguinte vão te ignorar no corredor. mesmo que no dia seguinte encham a cara de novo e te tirem pra dançar de novo.
tu aprende que em vez de ir pra festa com a tua melhor roupa e perfume, tu ficaria melhor em casa lendo um livro. tu aprende que por mais que tu te iluda com o misterioso interesse que certas pessoas têm por ti, na hora em que tu vê a morte de perto, só quem está do teu lado de verdade sabe o quanto tu tá sofrendo e assustado e com medo de morrer sem ter feito quase nada daquilo que tu planejou. e tu pensa que não tem ninguém pra quem tu possa ligar que vai sair de onde estiver correndo à pé se for preciso pra ir lá te tirar daquela porra daquele carro destruído numa vala, no meio duma chuva.
tu aprende, aos poucos, e com muito sacrifício, que a vida dá jeito de ir te mostrando quem merece aquela caixa decorada com a fita rara. é quem jamais vai te ignorar, mesmo que pra isso precise sacrificar seu conforto. porque não é fácil assumir esse pacote, que vem com todos esses poréns que tu cultiva há tanto tempo. mas só merece que tu perca teu respeito por ti mesmo aquele que não te faz perder o respeito por ti mesmo. que segura essa caixa bonita, decorada com a fita rara, abre na tua frente e vê que tem milhões de poréns saltitando. mas estica a mão pra pegar aquela coisa de mais valor, tira de dentro da caixa e diz: eu gosto tanto disso. e, ainda olhando no teu olho, coloca de novo na caixa, junto com todos os poréns, aperta a caixa contra o peito e te convida pra entrar. e coloca a caixa num lugar especial.
tu aprende que tu só deve colocar aquela combinação vintage linda com lacinhos pretos, ou aquelas rendas bordô, ou aquelas garters tão delicadas, pra quem um dia mandou todo mundo sair do carro pra te dar carona, só porque te viu caminhando na chuva, com os coturnos cheios de lama. porque essa pessoa vai correr o mundo contigo no sol, no calor, no seu horário de almoço, pra procurar o lenço de pinup que tu tanto quer. e é essa pessoa que vai te olhar nos olhos e ver que tu vale muito mais que conforto, que os amigos de confraria, ou o que quer que seja que sirva de desculpa pra ela não tomar uma decisão. que tu vale enfrentar todo mundo. que te respeitar está acima de tudo. alguém que vai preferir lutar contigo a transar com qualquer outra, como diria aquela frase famosa.
tu aprende a ser forte de verdade e perde o medo de bater o pé pelo que tu quer. tu aprende que enquanto tu continuar sendo a estepe boazinha que deixa todo mundo tranquilo, ou a amiga legal que serve pra tudo, ninguém vai te dar valor de verdade. tu aprende a ser corajosa pra enfrentar o "sinto muito, mas não posso" quando tu cansa de ficar te iludindo e só se dando conta de que tá se enganando sozinha, depois. e quando tu cria coragem e diz, com as mãos na cintura: "ou toma coragem, enfrenta o mundo e assume o risco de receber tudo o que eu tenho pra dar, ou vaza já"; aí tem o perigo de aparecer um punhado de covardezinhos declinando do tentador convite. mas é quando talvez tu vá ver um merdinha que sobra e que de repente decide correr o risco porque o benefício, considera ele, é maior. mas pra isso tu precisa colocar mesmo a mão na cintura e mandar vazar quem não tem cojones.
o primeiro passo é difícil. mas ele começa já. começa colocando as mãos na cintura.
[ Penkala ] 03:17 ] 0 comentários
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